Arquivo do mês: abril 2013

Versos que Transformam a Mente II

Os primeiros sete versos dos Oito Versos para Treinar a Mente lidam com as práticas associadas ao cultivo do aspecto método do caminho, tais como a compaixão, o altruísmo, a aspiração para se alcançar o estado búdico (nirvana) e assim por diante. O oitavo verso trata das práticas dirigidas ao cultivo do aspecto sabedoria do caminho.
 
Estes são os primeiros três versos dos Oito Versos para Treinar a Mente, comentados por Sua Santidade o Dalai Lama em 8 de novembro de 1998, em Washington DC – EUA.
 
Treinando a Mente — Verso 1
 
Pensando em todos os seres sencientes
como ainda melhores que a jóia dos desejos
que realiza as mais altas aspirações,
que eu sempre possa considerá-los preciosos.
 
Essas quatro linhas mostram como cultivar um sentido de acolhimento a todos os seres sencientes. O ponto principal que esse verso enfatiza é o desenvolvimento de uma atitude que permita considerar os seres sencientes como preciosos, como jóias preciosas. Uma pergunta poderia ser feita: “Porque precisamos cultivar o pensamento de que outros seres sencientes são preciosos e valiosos?”
 
Em um sentido, podemos dizer que outros seres são a fonte principal de nossa alegria, felicidade e prosperidade, e isso não apenas nos relacionamentos do dia-a-dia com as pessoas. Podemos ver que todas as experiências desejáveis que nós cultivamos ou aspiramos alcançar, dependem da cooperação e interação com outros seres. Esse é um fato óbvio. Similarmente, do ponto de vista do praticante no caminho, muitos dos níveis elevados de realização obtidos e o progresso espiritual feito dependem da cooperação e interação com outros seres. Além disso, no estado de iluminação, a verdadeira compaixão búdica acontece espontaneamente, e sem nenhum esforço, apenas em relação aos outros seres, porque eles são os recipientes e beneficiários dessas atividades iluminadas. Assim pode-se ver que os outros seres são, em um sentido, a fonte verdadeira de nossa alegria, prosperidade e felicidade.
 
Alegrias e confortos básicos da vida, tais como o alimento, o abrigo, a roupa, e a companhia do outro, são todos dependentes dos outros seres sencientes, como o são a fama e o renome. Nossas sensações de conforto e segurança são dependentes das percepções que as outras pessoas têm de nós, e dos afetos que nos dedicam. É quase como se nossa existência dependesse da afeição humana. Nossa vida não pode começar sem afeto, e nosso sustento, crescimento apropriado, e assim por diante, todos dependem disso. Para conseguir uma mente serena, quanto maior for sua preocupação com o outro, mais profunda será sua satisfação. No exato momento em que você desenvolve seu cuidado, o outro aparece mais positivo. Isso em conseqüência de sua atitude.
 
Por outro lado, se o outro é rejeitado, ele aparecerá de forma negativa a você. Outra coisa muito clara para mim, é que no momento em que você pensa apenas em si mesmo, o foco de sua mente inteira estreita-se, e por causa desse foco estreito, as coisas desconfortáveis podem parecer enormes, trazendo medo, desconforto e uma sensação de esmagamento pela aflição. Entretanto, quando você pensa nos outros com um sentido de cuidar, sua mente se expande. Dentro desse ângulo mais abrangente, seus próprios problemas parecem não ter muita significância, e isso faz uma grande diferença. Se você tem senso de cuidado pelos outros, manifestará um tipo de força interna, apesar de suas próprias situações difíceis e problemáticas. Com esta força, seus problemas parecerão menos significativos e embaraçosos. Ultrapassando-os e cuidando dos outros, você ganha uma força interna, autoconfiança, coragem, e uma grande sensação de calma. Esse é um exemplo claro de como a maneira de pensar pode fazer a diferença.
 
O Guia do Modo de Vida do Bodhisattva (Bodhicaryavatara) diz que há uma diferença fenomenológica entre a dor do outro que você tenta tomar para si, e a dor que vem de sua experiência direta de dor e sofrimento. No primeiro caso há um elemento do desconforto, pois você está compartilhando a dor do outro; entretanto, como Shantideva nos mostra, há também uma certa estabilidade porque, de certo modo, você está voluntariamente aceitando aquela dor. Na participação voluntária na dor do outro há força e um senso de confiança. Mas no segundo caso, quando você passa por sua própria dor e sofrimento, há o elemento involuntário, e por falta de controle de sua parte, você se sente fraco e completamente oprimido. Nos ensinamentos budistas de altruísmo e compaixão, determinadas expressões são usadas, tais como: “Deve-se desconsiderar nosso próprio bem-estar e cuidar do bem estar do outro”. É importante compreender estas expressões relativas à prática de compartilhar a dor e o sofrimento do outro, em seu próprio contexto.
 
O ponto fundamental é que, se você não tem capacidade de amar a si mesmo, então simplesmente não há uma base sobre a qual possa construir-se um senso de cuidado pelo outro. O amor por você mesmo não significa que você tem uma dívida consigo próprio. Ao invés, a capacidade de amar e ser amável com si mesmo é um fato muito fundamental na existência humana: temos todos a tendência natural de buscar a felicidade e evitar o sofrimento. Já que essa base existe em relação a nós mesmos, podemos estendê-la a outros seres sencientes. Assim, quando encontramos expressões nos ensinamentos tais como “Desconsidere seu próprio bem estar e cuide do bem estar do outro”, devemos entendê-los no contexto do nosso próprio treinamento, de acordo com o ideal de compaixão. Isso é importante, se não quisermos nos acomodar em formas autocentradas de pensar, que desconsideram o impacto de nossas ações sobre os outros seres sencientes.
 
Como eu disse anteriormente, podemos desenvolver uma atitude de considerar os outros seres sencientes como preciosos, reconhecendo a parte que a gentileza deles tem em nossas próprias experiências de alegria, felicidade e sucesso. Esta é a primeira consideração. A segunda é a seguinte: através da análise e da contemplação você verá que muito de nossa miséria, sofrimento e dor é realmente resultado de uma atitude autocentrada, que busca nosso bem estar às custas do outro, enquanto que muito da alegria, felicidade e segurança em nossas vidas vêm dos pensamentos e emoções que cuidam do bem estar dos outros seres. Contrastando estas duas formas de pensar e sentir, podemos nos convencer da necessidade de considerar o bem estar do outro como precioso.
 
Há outro fato a respeito de cultivarmos pensamentos e emoções em prol do bem estar do outro: nossos próprios interesses e desejos realizam-se como conseqüência de nosso trabalho para outros seres sencientes. Como Je Tsong Khapa expõe em sua Grande Exposição do Caminho da Iluminação (Lanrim Chenmo), “quanto mais o praticante se engaja em ações e pensamentos focados e dirigidos à realização do bem estar do outro, mais suas próprias aspirações ocorrerão em consequência, sem necessidade de nenhum esforço separado adicional.” Alguns de vocês devem ter ouvido recentemente a observação, que faço freqüentemente, que de alguma forma os bodhisatvas, os praticantes compassivos do caminho budista, são sabiamente egoístas, enquanto pessoas como nós são tolamente egoístas. Pensamos em nós mesmos e negligenciamos os outros, e o resultado é que estamos sempre nos sentindo infelizes e miseráveis. Chegou o tempo de pensar mais sabiamente, não acham? Essa é minha crença. Em algum ponto surge a pergunta: “Podemos realmente mudar nossa atitude?”
 
Minha resposta, baseada em minha pequena experiência é, sem hesitação, “Sim”! Isto está muito claro para mim! A coisa a que chamamos mente é algo muito peculiar. Às vezes é muito teimosa e difícil de mudar. Mas com esforços contínuos, e convicção firmada na razão, nossas mentes às vezes são muito honestas. Quando realmente percebemos alguma necessidade de mudar, nossas mentes podem mudar. Apenas ansiar e orar não transformará sua mente, mas com convicção e razão, e razão baseada por último em sua experiência, você pode transformar sua mente. O tempo é um fator importante aqui, e com o tempo nossa atitude mental pode certamente mudar. Um ponto que tenho que tocar aqui é que algumas pessoas, especialmente aquelas que se vêem como muito realistas e práticas, são excessivamente realistas e obsessivas pela praticidade. Elas podem pensar: “Estas idéias de desejar a felicidade de todos os seres sencientes, de cultivar pensamentos de cuidado com o bem estar de todos os seres sencientes, são irrealistas e muito idealistas.
 
Não contribuem de forma alguma para a transformação da mente ou para alcançar algum tipo de disciplina mental, porque são completamente inalcançáveis”. Algumas pessoas podem pensar nestes termos, e sentir que talvez uma forma mais eficaz seria começar com um círculo próximo das pessoas com quem já se tem uma interação direta. Pensam que mais tarde podem aumentar e expandir esses parâmetros. Sentem que não há razão de pensar em todos os seres sencientes, já que há um número infinito deles. É concebível para eles que sintam algum tipo de conexão com os seres humanos de todo o planeta, mas sentem que os infinitos seres sencientes, nos múltiplos universos e mundos não têm nada a ver com sua própria experiência como indivíduo. Podem perguntar: “Qual o sentido que está em cultivar a mente que inclui todos os seres”? Em certo sentido, essa pode ser uma objeção válida, mas o importante aqui é entender o impacto de cultivarmos tais sentimentos altruístas.
 
O ponto aqui é tentar desenvolver o escopo de nossa empatia, de modo a estendê-la a todas as formas de vida que têm a capacidade de sentir dor e experimentar felicidade. É uma questão de definirmos os organismos vivos como seres sencientes. Esse tipo de sentimento é muito poderoso, e não há nenhuma necessidade de nos identificarmos, em termos específicos, com cada ser vivo, para que ele seja eficaz. Pegue, por exemplo, a natureza universal da impermanência. Quando cultivamos o pensamento de que coisas e acontecimentos são impermanentes, não precisamos considerar cada simples coisa do universo para nos convencermos da impermanência. Não é assim que a mente funciona. Então é importante apreciarmos esse ponto.
 
No primeiro verso, há uma referência específica ao agente “Eu”. “Possa eu sempre considerar todos os outros seres como preciosos”. Talvez uma breve discussão do entendimento budista a respeito do que esse “Eu” se refere, possa ser útil nesse estágio. Falando de forma geral, ninguém discute que pessoas: você, eu e outros, existimos. Não necessitamos questionar a existência de alguém que tem a experiência da dor. Dizemos “Eu vejo isso e aquilo…” e “Eu ouço isso e aquilo….”, usando constantemente o pronome da primeira pessoa em nosso discurso. Não há como questionar a existência do nosso “Eu” convencional, que todos experimentamos no dia-a-dia. Questões aparecem, entretanto, quando tentamos entender o que esse “Eu” é realmente. Avaliando essas questões, podemos estender a análise para um pouco além da vida cotidiana; podemos, por exemplo, recordar nossa juventude. Quando você tem uma recordação de algo de sua juventude, você tem uma sensação próxima de identificação com o corpo e o “Eu” dessa época. Quando você era jovem, havia um “Eu”. Quando você envelhece, há um “Eu”. E há também um “Eu” que permeia estes dois estágios. Uma pessoa pode recordar as experiências de sua juventude. Uma pessoa pode imaginar suas experiências na velhice, e assim por diante. Podemos ver uma identificação acentuada com nossos estados corporais e com o sentido de “Eu” consciente. Muitos filósofos e, particularmente, pensadores religiosos, buscaram compreender a natureza do indivíduo, aquele “Eu” que mantém sua continuidade através do tempo. Isso tem sido especialmente importante dentro das tradições indianas. As escolas indianas não budistas falam de “Atman”, que é traduzido aproximadamente como “Eu” ou “alma”.
 
Em outras tradições religiosas não indianas ouvimos também as discussões sobre a “alma” dos seres, e assim por diante. No contexto indiano, “Atman” tem o significado distinto de um agente que é independente das experiências empíricas do indivíduo. Na tradição hindu, por exemplo, há uma crença na reencarnação, que inspirou muitas discussões. Encontrei também referências a formas de práticas místicas em que uma consciência ou alma assume o corpo de uma pessoa morta recentemente. Se quisermos dar sentido à reencarnação, se quisermos dar sentido a uma alma assumindo outro corpo, então algum tipo de agente que é independente das experiências empíricas deve prevalecer. No geral, as escolas não budistas indianas chegam à conclusão que esse “Eu” se refere de fato a esse agente independente, ou “Atman”. Ele refere-se ao que é independente de nosso corpo e mente. No geral, as tradições budistas rejeitaram a tentação de entender um “Eu” , um “Atman” ou uma alma independente de nosso corpo e mente. Entre as escolas budistas, há um consenso de que o “Eu” tem que ser entendido em termos de agregação de corpo e mente. Mas no que se refere ao que exatamente é isso a que estamos nos referindo quando mencionamos o “Eu”, há divergências de opinião, mesmo entre pensadores budistas. Muitas escolas budistas sustentam que em uma análise final iremos identificar o “Eu” como a consciência do ser. Através da análise, podemos mostrar como nosso corpo é uma contingência, e o que continua através do tempo é a consciência do seres.
 
Claro, outros pensadores budistas rejeitam o movimento que identifica o “Eu” com a consciência. Pensadores budistas como Buddhapalita e Chandrakirti têm rejeitado a idéia de buscar um “Eu” eterno e duradouro. Eles dizem que seguir esse tipo de argumento é, em um sentido, sucumbir à enraizada necessidade de agarrar-se a algo. Uma análise da natureza do “Eu”, segundo essa linha, daria em nada, pois o desafio é metafísico, é um desafio por um “Eu” metafísico em que, Buddhapalita e Chandrakirti argumentam, estamos indo além do domínio da compreensão da linguagem e da experiência cotidianas. E portanto, o “Eu”, pessoa ou agente devem ser entendidos puramente em termos de como experimentamos nosso sentido de “Eu”. Não devemos ir além do entendimento convencional do “Eu” e da pessoa. Deveríamos desenvolver um entendimento de nossa existência em termos de existência corporal e mental, de forma que o “Eu” e a pessoa são de alguma forma entendidos como designações dependentes de mente e corpo. Chandrakirti usou o exemplo da charrete, em seu Guia para o Caminho do Meio (Madhyamakavatara). Quando sujeitamos o conceito da charrete à análise, não encontraremos charrete que seja metafísicamente ou substancialmente real e que seja independente das partes que constituem a charrete. Mas isso não significa que a charrete não exista. Similarmente, quando submetemos esse “Eu”, a natureza do “Eu”, a alguma análise, não encontraremos um “Eu” independente do corpo e da mente que constituem a existência do indivíduo ou do ser. Esse entendimento do “Eu” como um ser dependentemente originado deve ser estendido também à nossa compreensão dos outros seres sencientes. Estes são, uma vez mais, designações dependentes da existência corporal e mental. A existência corporal e mental é baseada nos agregados, que são os constituintes psicofísicos dos seres.
 
Treinando a Mente — Verso 2
 
Onde quer que eu vá, com quem quer que eu vá,
possa eu ver a mim mesmo como menos que os outros,
e do fundo de meu coração
possa eu considerá-los supremamente preciosos.
 
O primeiro verso apontou-nos a necessidade de cultivarmos pensamentos que considerem os outros seres como preciosos. No segundo verso, trataremos de apontar que o reconhecimento da preciosidade dos outros seres sencientes, e o sentido de cuidado para com eles desenvolvido a partir dessa base, não devem estar baseados no sentimento de piedade para com eles, ou seja, no pensamento de que sejam inferiores. Ao invés, o que está sendo enfatizado é o senso de cuidado para com os outros seres, e o reconhecimento de sua preciosidade, mas baseados em reverência e respeito, como seres superiores. Gostaria de aqui enfatizar como devemos entender a compaixão dentro do contexto budista. Falando de forma geral, na tradição budista, compaixão e gentileza amorosa são vistas como dois lados da mesma coisa.
 
Diz-se que a compaixão é o desejo empático que aspira a ver o objeto de compaixão, o ser senciente, livre do sofrimento. A gentileza amorosa é a aspiração que deseja felicidade para os outros. Nesse contexto, amor e compaixão não devem ser confundidos com amor e compaixão em seu sentido convencional. Por exemplo, experimentamos uma sensação de proximidade com os seres que nos são queridos.Temos uma sensação de compaixão e empatia para com eles. Temos também um forte amor por essas pessoas, mas freqüentemente esse amor e compaixão são baseados em nossas autoreferências: “Esse ou aquele é meu amigo”, “meu esposo”, “meu filho”, e assim por diante. O que acontece com esse tipo de amor e compaixão, que pode ser forte, é que eles podem ser tingidos por apego, uma vez que eles envolvem considerações auto referenciadas. Uma vez que haja apego, há também o potencial para o ódio e a raiva aparecerem. Apego, raiva e ódio andam de mãos dadas. Por exemplo, se a compaixão de um ser por outro é tingida por apego, ao menor incidente ela pode se transformar em seu oposto emocional. Então, ao invés de desejar que essa pessoa seja feliz, desejamos que ela sinta-se mal.
 
A verdadeira compaixão e o verdadeiro amor, no contexto do treinamento da mente, são baseados no simples reconhecimento que os outros, como eu, naturalmente aspiram à felicidade e à superação do sofrimento, e que eles, como eu, têm o direito de alcançar essa aspiração básica. A empatia que você desenvolve por outro ser, baseada no reconhecimento desse fato básico, é a compaixão universal. Não há elementos de preconceito ou discriminação. Essa compaixão pode ser estendida a todos os seres sencientes, uma vez que eles são capazes de experimentar dor e felicidade. Assim, a característica essencial da verdadeira compaixão é que ela é universal, sem discriminação. Assim, treinar a mente no cultivo da compaixão, na tradição budista, envolve primeiramente cultivar pensamentos de mente tranqüila, estável, ou de equanimidade, para com todos os seres sencientes. Por exemplo, você pode refletir a respeito de que determinada pessoa possa ser seu amigo, seu parente, e assim por diante, nesta vida, mas essa pessoa pode ter sido, do ponto de vista budista, seu pior inimigo em uma vida passada. Igualmente, você pode aplicar o mesmo raciocínio a quem considere seu inimigo. Embora essa pessoa possa apresentar-se negativa com você e ser seu inimigo nesta vida, ele ou ela pode ter sido seu melhor amigo/amiga em outra vida, ou pode ter sido seu parente, e assim por diante.
 
Refletindo sobre a natureza flutuante dos relacionamentos com os outros, e também sobre o potencial de todos os seres sencientes para serem amigos ou inimigos, você desenvolve essa mente estável, ou equânime.
 
A prática do desenvolvimento e cultivo da equanimidade envolve uma forma de desapego. Mas é importante entender o que esse desapego significa. Algumas vezes, quando as pessoas ouvem a respeito da prática budista do desapego, elas pensam que o budismo defende a indiferença em relação a todas as coisas, mas esse não é o caso. Primeiro, cultivar o desapego, poderíamos dizer, remove o ferrão das emoções discriminadoras em relação aos outros, que são baseadas na proximidade ou distância. Você assenta as bases sobre as quais pode cultivar e estender a compaixão genuína a todos os seres sencientes. Os ensinamentos budistas do desapego não implicam o desenvolvimento de uma atitude de desengajamento ou indiferença para com o mundo ou a vida.
 
Movendo-nos para outra linha do Verso, acho que é importante entender a expressão “Possa eu me ver abaixo dos outros”, no contexto correto. Certamente isso não está dizendo que você deve direcionar seus pensamentos para uma auto-estima mais baixa, ou que você deva perder suas esperanças e se sentir desanimado, pensando: “Sou o mais baixo de todos, sou incapaz, não posso fazer nada e não tenho forças”. Isso não é o tipo de significado de “abaixo” ou “menos” a que nos referimos aqui. Considerar-se “menos” ou “abaixo” do outro tem que ser compreendido em termos relativos. De forma geral, seres humanos são superiores aos animais. Estamos equipados com a capacidade de julgar o certo e errado e a pensar em termos de futuro, e assim por diante. Entretanto, poderíamos argumentar que, em outros pontos, os seres humanos são inferiores aos animais. Por exemplo, os animais não têm a capacidade de julgar entre o certo e o errado no sentido moral, e não têm a habilidade de ver as conseqüências de longo prazo de suas ações, mas no reino animal há pelo menos algum sentido de organização. Se você olha para a savana africana, por exemplo, predadores caçam suas presas apenas por necessidade, quando estão com fome. Quando não estão com fome, podemos vê-los coexistindo muito pacificamente. Mas nós seres humanos, apesar de nossas habilidades de julgar entre o certo e o errado, agimos às vezes baseados em pura cobiça. Ou, às vezes, nos entregamos a ações de puro capricho, matando por esporte, digamos, quando estamos caçando ou pescando. Então, em um sentido, pode-se argumentar que os seres humanos têm provado ser inferiores aos animais. É em tais termos relativos que podemos nos considerar abaixo dos outros. Uma das razões de usar a palavra abaixo é enfatizar que, normalmente, quando sucumbimos a emoções de raiva, ódio, forte apego e cobiça, o fazemos sem nenhum sentido de controle. Estamos freqüentemente esquecidos do impacto que nosso comportamento tem sobre os outros seres sencientes. Mas, cultivando deliberadamente o pensamento que considera os outros superiores e dignos de nossa reverência, provemo-nos um fator de autocontrole. Então, quando surgem essas emoções, elas não terão tanto poder que nos faça desconsiderar o impacto de nossas ações sobre os outros seres. É nestes termos que se sugere reconhecer o outro como ser superior.
 
Treinando a Mente — Verso 3
 
Possa eu examinar minha mente em todas as ações,
tão logo ocorra um estado negativo,
uma vez que ele põe em risco a mim e aos outros,
possa eu firmemente enfrentá-lo e preveni-lo.
 
Esse verso realmente apreende o coração do que poderia ser chamada a essência da prática do Buddhadharma (Dharma do Buda). Quando falamos sobre o Dharma no contexto dos ensinamentos budistas, estamos falando a respeito de nirvana, ou liberação do sofrimento. Liberação do sofrimento, nirvana ou cessação é o verdadeiro Dharma. Há muitos níveis de cessação — por exemplo, impedir-se de matar ou assassinar poderia ser uma forma de Dharma. Mas isso não pode ser chamado especificamente de Dharma budista, porque impedir de matar é algo que mesmo alguém não religioso pode adotar, como resultado de obedecer à lei. A essência do Dharma na tradição budista é o estado de liberação do sofrimento e das obstruções (sânscrito klesha, tibetano nyonmong) que estão na raiz do sofrimento. Este verso ensina como combater estas obstruções ou emoções e pensamentos aflitivos. Podemos dizer que, para um praticante budista, o inimigo real é o inimigo interior — essas obstruções mentais e emocionais. São essas aflições mentais e emocionais que dão origem à dor e ao sofrimento. A tarefa real do praticante do Buddhadharma é vencer esse inimigo interior.
 
Uma vez que o coração da prática do Dharma encontra-se na aplicação de antídotos a essas obstruções mentais e emocionais, e é de certa forma seu fundamento, o terceiro verso sugere que é muito importante cultivar a presença mental plena desde o início. Do contrário, se você deixar emoções e pensamentos negativos surgirem dentro de você sem qualquer restrição, sem consciência plena de sua negatividade, então de certa maneira você está lhes dando rédea solta. Eles podem se desenvolver a tal ponto em que simplesmente não há modo de contê-los. Entretanto, se você desenvolve atenção mental plena da sua negatividade, então, quando eles ocorrerem, você será capaz de identificá-los tão logo eles surjam. Você não lhes dará a oportunidade ou espaço para se transformar em emoções e pensamentos negativos completos. O modo pelo qual este terceiro verso sugere que apliquemos um antídoto, penso eu, é no nível da experiência manifestada e sentida da emoção. Ao invés de atingir a raiz da emoção em geral, o que está sendo sugerido é a aplicação de antídotos que são apropriados para emoções e pensamentos negativos específicos. Por exemplo, para combater a raiva, você deveria cultivar o amor e a compaixão. Para combater um forte apego por um objeto, você deveria cultivar pensamentos a respeito da impureza do objeto, sua natureza indesejável, e assim por diante. Para combater o orgulho ou a arrogância, você precisa refletir sobre as suas limitações, que podem originar um sentimento de humildade. Por exemplo, você pode pensar sobre todas as coisas no mundo a respeito das quais você é completamente ignorante. Considerem a intérprete de sinais aqui à minha frente. Quando olho para ela e vejo os gestos complicados com que ela executa a tradução, não faço idéia do que está acontecendo, e perceber isso é uma experiência de humildade. Por minha própria experiência pessoal, toda vez que tenho o menor sentimento de orgulho, penso em computadores. Isso realmente me tranqüiliza!

Fonte: http://www.sabedoriaoculta.com

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Versos que Transformam a Mente I

Vou agora ler e explicar brevemente um dos mais importantes textos sobre a transformação da mente, Lojong Tsigyema (Oito Versos que Transformam a Mente). Este texto foi composto por Geshe Langri Tangba, um bodisatva bastante incomum. Eu próprio o leio todos os dias, tendo recebido a transmissão do comentário de Kyabje Trijang Rinpoche.
 
1. Com a determinação de alcançar
O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes,
Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos,
Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.
 
Aqui, estamos pedindo: “Possa eu ser capaz de enxergar os seres como uma jóia preciosa, já que são o objeto por conta do qual poderei alcançar a onisciência; portanto, possa eu ser capaz de prezá-los e estimá-los.”
 
2. Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender
A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas,
E, com todo respeito, considerá-las supremas,
Do fundo do meu coração.
 
“Com todo respeito considerá-las supremas” significa não as ver como um objeto de pena, o qual olhamos de cima, mas, sim, as ver como um objeto elevado. Tomemos, por exemplo, os insetos: eles são inferiores a nós porque desconhecem as coisas certas a serem adotadas ou descartadas, ao passo que nós conhecemos essas coisas, já que percebemos a natureza destrutiva das emoções negativas. Embora seja essa a situação, podemos também enxergar os fatos de um outro ponto de vista. Apesar de termos consciência da natureza destrutiva das emoções negativas, deixamo-nos ficar sob a influência delas e, nesse sentido, somos inferiores aos insetos.
 
3. Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente
E, sempre que surgir uma emoção negativa,
Pondo em risco a mim mesmo e aos outros,
Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.
 
Quando nos propomos uma prática desse tipo, a única coisa que constitui obstáculo são as negatividades presentes no nosso fluxo mental; já espíritos e outros que tais não representam obstáculo algum. Assim, não devemos ter uma atitude de preguiça e passividade diante do inimigo interno; antes, devemos ser alertas e ativos, contrapondo-nos às negatividades de imediato.
 
4. Vou prezar os seres que têm natureza perversa
E aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos,
Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso,
Muito difícil de achar.
 
Essas linhas enfatizam a transformação dos nossos pensamentos em relação aos seres sencientes que carregam fortes negatividades. De modo geral, é mais difícil termos compaixão por pessoas afligidas pelo sofrimento e coisas assim, quando sua natureza e personalidade são muito perversas. Na verdade, essas pessoas deveriam ser vistas como objeto supremo da nossa compaixão. Nossa atitude, quando nos deparamos com gente assim, deveria ser a de quem encontrou um tesouro.
 
5. Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa,
Ou a insultarem e caluniarem,
Vou aprender a aceitar a derrota,
E a eles oferecer a vitória.
 
Falando de modo geral, sempre que os outros, injustificadamente, fazem algo de errado em relação à nossa pessoa, é lícito retaliar, dentro de uma ótica mundana. Porém, o praticante das técnicas da transformação da mente devem sempre oferecer a vitória aos outros.
 
6. Quando alguém a quem ajudei com grande esperança
Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
Vou aprender a ver essa outra pessoa
Como um excelente guia espiritual.
 
Normalmente, esperamos que os seres sencientes a quem muito auxiliamos retribuam a nossa bondade; é essa a nossa expectativa. Ao contrário, porém, deveríamos pensar: “Se essa pessoa me fere em vez de retribuir a minha bondade, possa eu não retaliar mas, sim, refletir sobre a bondade dela e ser capaz de vê-la como um guia especial.”
 
7. Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção,
Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos,
E a tomar sobre mim, em sigilo,
Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.
 
O verso diz: “Em suma, possa eu ser capaz de oferecer todas as qualidades boas que possuo a todos os seres sencientes,” — essa é a prática da generosidade — e ainda: “Possa eu ser capaz, em sigilo, de tomar sobre mim todos os males e sofrimentos deles, nesta vida e em vidas futuras.” Essas palavras estão ligadas ao processo da inspiração e expiração.
 
Até aqui, os versos trataram da prática no nível da bodhicitta convencional. As técnicas para cultivo da bodhicitta convencional não devem ser influenciadas por atitudes como: “Se eu fizer a prática do dar e receber, terei melhor saúde, e coisas assim”, pois elas denotam a influência de considerações mundanas. Nossa atitude não deve ser: “Se eu fizer uma prática assim, as pessoas vão me respeitar e me considerar um bom praticante.” Em suma, nossa prática destas técnicas não deve ser influenciada por nenhuma motivação mundana.
 
8. Vou aprender a manter estas práticas
Isentas das máculas das oito preocupações mundanas,
E, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios,
Serei libertado da escravidão do apego.
 
Essas linhas falam da prática da bodhicitta última. Quando falamos dos antídotos contra as oito atitudes mundanas, existem muitos níveis. O verdadeiro antídoto capaz de suplantar a influência das atitudes mundanas é a compreensão de que os fenômenos são desprovidos de natureza intrínseca. Os fenômenos, todos eles, não possuem existência própria — eles são como ilusões. Embora apareçam aos nossos olhos como dotados de existência verdadeira, não possuem nenhuma realidade. “Ao compreender sua natureza relativa, possa eu ficar livre das cadeias do apego.”
 
Deveríamos ler Lojong Tsigyema todos os dias e, assim, incrementarmos nossa prática do ideal do bodisatva.

(Extraído de The Union Of Bliss And Emptiness.)

Fonte:http://www.sabedoriaoculta.com

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A jornada interior

A maioria das pessoas reage de forma automática diante de certas situações que surgem na vida. Isso é natural e saudável em determinadas circunstâncias. Por exemplo: se vemos, de repente, algo ameaçador diante de nós, nossa reação instintiva é nos preparamos para lutar ou fugir.

Até mesmo o nosso corpo responde biologicamente a esse tipo de estímulo; nosso batimento cardíaco, nosso processo respiratório… tudo se altera. Até aí tudo bem. O problema ocorre quando essa situação de estresse (tensão) persiste e toma um tamanho desproporcional e fora da realidade.

Essa falha de percepção e compreensão das circunstâncias da vida também nos leva a julgarmos os outros, condenando-os de acordo com os nossos valores morais, ainda que nossos valores não sejam lá grande coisa…

Além disso, aprendemos, desde a nossa infância, que vivemos em um mundo competitivo onde cada um deve agir por si se quiser vencer na vida. E assim vamos vivendo, dia após dia, semana após semana. No domingo mesmo já vamos dormir tristes, ansiosos, temendo a terrível segunda-feira. Isso porque o trabalho, para maioria, não significa autorrealização, mas uma forma de sobrevivência. Nos preparamos para um dia que será de competição e não de cooperação. Seja na empresa, na escola, muitos se sentem na obrigação de estar o tempo todo provando sua capacidade. E, assim, nos armamos contra o que consideramos ameaçador, julgando e condenando aqueles que nos ferem e nos sentindo cada vez piores, por mais que tentemos fugir dessa dor interior através das distrações comuns, que alienam… no consumismo daquilo que não precisamos, ingerindo aquilo que agride nosso corpo e por aí vai.

Chega! Pare de viver essa vida robotizada! Pare de viver nessa turbulência emocional, com respostas condicionadas diante das situações que surgem na sua vida. Comece agora mesmo a sentir esse “mundo” que existe dentro de você, essa alma que grita por amor, por afeto; essa inteligência que busca se desenvolver, criar… Onde estão seus sonhos? Você é uma pessoa que vive para se realizar ou apenas sobrevive num mundo caótico de seres humanos frustrados?
Você pode ser feliz! Vamos começar agora essa jornada de autoconhecimento e realização?

Então, o primeiro passo é voltar-se para dentro de si. Comece percebendo sua respiração, relaxe os músculos, diminua as tensões… inspire e expire o ar profundamente e com calma, sem forçar. Depois, comece a se autoperceber. O que está sentindo, o que está temendo, o que passa pela sua cabeça quando está distraído… Não julgue nada, não racionalize nada, não critique… apenas perceba. A análise pode vir em outro momento. Deixe para refletir quando estiver sereno. Primeiro, apenas perceba o momento presente, a realidade do agora.

Quando você ultrapassa as barreiras da mente, dos desejos superficiais, dos julgamentos, das carências… enfim, do ego, percebe uma voz que fala através do silêncio. É um vazio que preenche a tudo e só pode ser percebido quando você entra nesse estado de serenidade e paz interior. Neste momento, não vale a pena mais nada, a não ser o amor universal e impessoal.

Este é o primeiro passo. É a jornada que o filho pródigo faz de volta à casa do Pai. É a reintegração com o seu Eu Interior, na busca pela sua natureza de Buda ou do Cristo interno que você é, de verdade.

Paz e luz!

Fonte: http://www.rcespiritismo.com.br

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Duas gerações dependentes entre si

Como o olhar de um idoso e o de uma criança são capazes tanto de nos sensibilizar! E quando esses olhares estão de mãos dadas, muito mais o coração se enternece.
Numa tarde dessas, o sol não estava tão quente, e avô e neto saíram para passear um pouco, esticar as pernas. Uma mão pequenina, toda novinha, agarrava-se à mão mais velha, mais áspera, mais marcada pela vida. Mãos entrelaçadas e amigas.
A criança nos faz brotar um sorriso verdadeiro; o idoso, com sua experiência, nos desperta respeito e admiração pelo tempo conquistado.
Lá iam os dois. Para o pequeno, todas as coisas eram novidade; para o mais vivido, era necessária a explicação dos tantos porquês. Uma florzinha, à beira do muro, era atraente ao neto, mas o avô, experiente, explicou que um “au-au” já poderia ter feito xixi e por isso não deveria pegá-la. O senhor estava certo, pois, antes de passarem, um cão, desses de apartamento, havia aguado a pequenina.
E no decorrer dessa volta pelo quarteirão, quantas ocorrências, quantas respostas foram precisas para a sede do saber.
O avô já não era mais jovem, no entanto, com paciência e amor, esclarecia ao seu netinho as mais simples coisas daquele caminho.
O neto, para seu avô, doava a graça e a vitalidade, recheava todos aqueles anos com a leveza, simplesmente, do puro amor.
Se o avô soltava um pouquinho a mão do pequeno, este logo buscava os olhos do vovô querido e, com carinha brava, dizia:
– Não me deixe, preciso de você – e procurava o amparo novamente.
Depois de uma volta completa, voltaram ao lar, ao pouso feliz, porém, em novo estado: o da plenitude de doar… receber… viver.
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tudo passa

Nesta existência física você será atirado vezes sem fim sobre ondas de felicidade e sofrimento, prosperidade e adversidade – saiba, porém, que todas elas serão momentâneas, Jamais dê valor a elas.

Swami Vivekananda

Fonte: http://www.sabedoriaoculta.com

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Hospedaria

Um famoso mestre espiritual aproximou-se do Portal principal do palácio do Rei. Nenhum dos guardas tentou pará-lo, constrangidos, enquanto ele entrou e dirigiu-se aonde o Rei em pessoa estava solenemente sentado, em seu trono.
 
“O que vós desejais?”
perguntou o Monarca, imediatamente reconhecendo o visitante.
“Eu gostaria de um lugar para dormir aqui nesta hospedaria,”
replicou o professor.
“Mas aqui não é uma hospedaria, bom homem,” disse o Rei, divertido, “Este é o meu palácio.”
“Posso lhe perguntar a quem pertenceu este palácio antes de vós?” perguntou o mestre.
“Meu pai. Ele está morto.”
“E a quem pertenceu antes dele?”
“Meu avô,” disse o Rei já bastante intrigado, “Mas ele também está morto.”
“Sendo este um lugar onde pessoas vivem por um curto espaço de tempo e então partem – vós me dizeis que tal lugar não é uma hospedaria?”
 
Conto Zen
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invenções para facilitar sua vida!

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Cafés suspensos

 
 
 
Entramos num pequeno café com um amigo meu e fizemos o nosso pedido. Enquanto estamos a aproximar-nos da nossa mesa duas pessoas chegam e vão para o balcão:
 
– “Cinco cafés, por favor. Dois deles para nós e três suspensos.”
 
Eles pagaram a sua conta, pegaram em dois e saíram.
 
Perguntei ao meu amigo:
 
– “O que são esses cafés suspensos?”
 
O meu amigo respondeu-me:
 
– “Espera e vais ver.”
 
Algumas pessoas mais entraram. Duas meninas pediram um café cada, pagaram e foram embora. A ordem seguinte foi para sete cafés e foi feita por três advogados – três para eles e quatro “suspensos”. Enquanto eu ainda me pergunto qual é o significado dos “suspensos” eles saem. De repente, um homem vestido com roupas gastas que parece um mendigo chega na porta e pede cordialmente:
 
– “Você tem um café suspenso?”
 
Resumindo, as pessoas pagam com antecedência um café que servirá para quem não pode pagar uma bebida quente. Esta tradição começou em Nápoles, mas espalhou-se por todo o mundo e em alguns lugares é possível encomendar não só cafés “suspensos” mas também uma sandes ou refeição inteira.

Será que aqui no Brasil poderíamos fazer algo parecido, hum…

  Acho que poderia ser uma jogada de marketing para alguns restaurantes por ai.

O que você acha?

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Espiritismo e a simbologia da Páscoa

A palavra Páscoa tem origem em dois vocábulos hebraicos: um, derivado do verbo pasah, quer dizer “passar por cima” (Êxodo, 23: 14-17), outro, traz raiz etimológica de pessach (ou pasha, do grego) indica apenas “passagem”. Trata-se de uma festa religiosa tradicionalmente celebrada por judeus e por católicos das igrejas romana e ortodoxa, cujo significado é distinto entre esses dois grupos religiosos.

No judaísmo, a Páscoa comemora dois gloriosos eventos históricos, ambos executados sob a firme liderança de Moisés: no primeiro, os judeus são libertados da escravidão egípcia, assinalada a partir da travessia no Mar Vermelho (Êxodo, 12, 13 e 14). 
 
O segundo evento caracteriza a vida em liberdade do povo judeu, a formação da nação judaica e a sua organização religiosa, culminada com o recebimento do Decálogo ou Os Dez Mandamentos da Lei de Deus (Êxodo 20: 1 a 21). As festividades da Páscoa judaica duram sete dias, sendo proibida a ingestão de alimentos e bebidas fermentadas durante o período. Os pães asmos (hag hammassôt), fabricados sem fermento, e a carne de cordeiro são os alimentos básicos.

A Páscoa católica, festejada pelas igrejas romana e ortodoxa, refere-se à ressurreição de Jesus, após a sua morte na cruz (Mateus, 28: 1-20; Marcos, 16: 1-20; Lucas, 24: 1-53; João, 20: 1-31 e 21: 1-25). A data da comemoração da Páscoa cristã, instituída a partir do século II da Era atual, foi motivo de muitos debates no passado. 

 
Assim, no primeiro concílio eclesiástico católico, o Concílio Nicéia, realizado em 325 d.C, foi estabelecido que a Páscoa católica não poderia coincidir com a judaica. A partir daí,a Igreja de Roma segue o calendário Juliano (instituído por Júlio César), para evitar a coincidência da Páscoa com o Pessach. Entretanto, as igrejas da Ásia Menor, permaneceram seguindo o calendário gregoriano, de forma que a comemoração da Páscoa dos católicos ortodoxos coincide, vez ou outra, com a judaica.

Os cristãos adeptos da igreja reformada, em especial a luterana, não seguem os ritos dos católicos romanos e ortodoxos, pois não fazem vinculações da Páscoa com a ressurreição do Cristo. 

 
Adotam a orientação mais ampla de que há, com efeito, apenas uma ceia pascoal, uma reunião familiar, instituída pelo próprio Jesus (Mateus 26:17-19; Marcos 14:12-16; Lucas 22:7-13) no dia da Páscoa judaica. Assim, entendem que não há porque celebrar a Páscoa no dia da ressurreição do Cristo. 
 
Por outro, fundamentados em certas orientações do apóstolo Paulo (1 Coríntios,5:7), defendem a ideia de ser o Cristo, ele mesmo, a própria Páscoa, associando a este pensamento importante interpretação de outro ensinamento de Paulo de Tarso (1Corintios, 5:8): o “cristão deve lançar fora o velho fermento, da maldade e da malícia, e colocar no lugar dele os asmos da sinceridade e da verdade.”

Algumas festividades politeístas relacionados à chegada da primavera e à fertilidade passaram à posteridade e foram incorporados à simbologia da Páscoa. Por exemplo, havia (e ainda há) entre países da Europa e Ásia Menor o hábito de pintar ovos cozidos com cores diferentes e decorá-los com figuras abstratas, substituídos, hoje, por ovos de chocolate.

A figura do coelho da páscoa, tão comum no Ocidente, tem origem no culto à deusa nórdica da fertilidade Gefjun, representada por uma lebre (não coelho). As sacerdotisas de Gefjun eram capazes de prever o futuro, observando as vísceras do animal sacrificado.

É interessante observar que nos países de língua germânica, no passado, havia uma palavra que denotava a festa do equinócio do inverno. Subsequentemente, com a chegada do cristianismo, essa mesma palavra passou a ser empregada para denotar o aniversário da ressurreição de Cristo. Essa palavra, em inglês, “Easter”, parece ser reminiscência de “Astarte”, a deusa-mãe da fertilidade, cujo culto era generalizado por todo o mundo antigo oriental e ocidental, e que na Bíblia é chamada de Astarote. (…) Já no grego e nas línguas neolatinas, “Páscoa” é nome que se deriva do termo grego pascha.

A Doutrina Espírita não comemora a Páscoa, ainda que acate os preceitos do Evangelho de Jesus, o guia e modelo que Deus nos concedeu: “(…) Jesus representa o tipo da perfeição moral que a Humanidade pode aspirar na Terra.” 

 
Contudo, é importante destacar: o Espiritismo respeita a Páscoa comemorada pelos judeus e cristãos, e compartilha o valor do simbolismo representado, ainda que apresente outras interpretações. A liberdade conquistada pelo povo judeu, ou a de qualquer outro povo no Planeta, merece ser lembrada e celebrada. Os Dez Mandamentos, o clímax da missão de Moisés, é um código ”(…) de todos os tempos e de todos os países, e tem, por isso mesmo, caráter divino. (…).” 
 
A ressurreição do Cristo representa a vitória sobre a morte do corpo físico, e anuncia, sem sombra de dúvidas, a imortalidade e a sobrevivência do Espírito em outra dimensão da vida.

Os discípulos do Senhor conheciam a importância da certeza na sobrevivência para o triunfo da vida moral. Eles mesmos se viram radicalmente transformados, após a ressurreição do Amigo Celeste, ao reconhecerem que o amor e a justiça regem o ser além do túmulo. Por isso mesmo, atraiam companheiros novos, transmitindo-lhes a convicção de que o Mestre prosseguia vivo e operoso, para lá do sepulcro.

Os espíritas, procuramos comemorar a Páscoa todos os dias da existência, a se traduzir no esforço perene de vivenciar a mensagem de Jesus, estando cientes que, um dia, poderemos também testemunhar esta certeza do inesquecível apóstolo dos gentios: “Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu quem vivo, mas é Cristo vive em mim. Minha vida presente na carne, vivo-a no corpo, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim”.

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